Vazio

O trânsito estava indiscutivelmente irritante. Seu carro, pra ajudar, estava ruim. 

Dirigiu até o escritório pensando somente em dar fim a tudo. Queria exterminadas suas responsabilidades, a utilidade do dinheiro, a noção do que é belo, a inconstância…

Chegou no trabalho atrasada 06 minutos. Abominou aquele momento em que passou o cartão de ponto e viu que isso também era mais forte do que ela. Algo que não podia controlar.

Entrou em sua sala e disse o ‘bom dia’ costumeiro, mais por obrigação do que por vontade… Sua única vontade era entrar muda e se alguém lhe falasse alguma coisa, qualquer coisa, gritar o pior palavrão… Um que ainda nem inventaram. Controlou esse ímpeto e discretamente se acomodou em sua cadeira. Ligou o computador e olhou sua mesa. Tinha alguns papéis, mas nada pra fazer. ‘Como posso ter trocado minha cama por isso?’, pensou. E então se lembrou: ‘Você trocou sua cama por isso porque o filho da puta do seu pai não foi homem pra assumir sua mãe então, quem deve trabalhar pra ajudá-la, é você.’.

Tentou afastar esses pensamentos, mas a tristeza tão familiar tomou conta dela mais uma vez. Não era raiva, não era rancor. Não era mágoa. Era tristeza.

Seus olhos marejados miravam um ponto invisível na tela do computador enquanto sua mente pensava na dor de ser ela mesma.

Por que era tão repulsiva? 

E a imagem de si segurando uma arma contra a própria cabeça voltou a ficar mais forte…

E nessa visão dolorosamente agradável, encontrou um pouco de paz.

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